Sunday, December 21, 2008

Dos ladrilhos

São Paulo é o maior cemitério da América Latina, mas as floriculturas do lado do muro fúnebre vendem enormes girassóis amarelos indicando o rumo do sol. Faz cinza e frio na cidade, mas todos as paredes parecem grandes papiros indecifráveis.



Tenho a impressão de que São Paulo não dorme como um zumbi que está encantadoramente fadado a caminhar:
Um moço de terno carrega um mala e faz canção quando passa por cima dos bueiros, cada um com sua textura.



São Paulo tem som de ovo na boca e erre mal costurado com putas enchendo um american bar. São Paulo tem cheiro de tiête a céu aberto e asfalto. Me senti terrivelmente só e invadida quando meus pés pisaram a Paulista. Amei a cidade à primeira vista

Saturday, December 20, 2008

As cinco pontas do meu desejo

no dia em que encontrei a sua mão
senti um arrepio profundo
era uma pele macia
umas linhas traçando um conto de cavalaria
nada como ter um pedaço de carne entre os dedos
pena que era frio
frio e sangrento
tive de levar correndo para o hospital

Tuesday, November 25, 2008

hora de explodir 3

Cheguei aqui para descobrir que não terei aula. Eu tenho e amanhã tem prova. Mas não acabou? Quem dera! Você está com uma cara de sono... Nossa, você está cheiroso

Cadê meu filho? O que você fizeram com meu filho? Deus, arranca a minha vida. Deus, eu botei meu filho nas tuas mãos

Box 12, cama estreita, grade de metal e uma pequena cortina. Tinha um conto do Cortázar sobre uma senhora, ela tinha muitos filhos, acho que uns sete. Um deles até veio morar no Brasil

O pai dela chegou. Venha buscá-lo. SAÍDA. Só vou falar com o senhor ali na parede. Entre, entre, é por aqui. Está uma confusão e até agora o médico não veio vê-la. Estou indo, mas se precisar é só ligar

Pronoms relatifs composé. Uma frase para cada um. Não consigo me concentrar. Acho que é porque não estou entendendo isso. Hoje, hoje, cortaram minha luz. Cheguei e vi as coisas derretendo, na geladeira.

Tuesday, November 18, 2008

hora de explodir 2

Tinha os olhos cheios de impurezas. O mundo se mostrava uma selva inebriante, onde o suor cobria com volúpias o miolo das árvores. E acordava remexendo na cama, se enforcando com os lençóis.

Chorou uma vez na vida. Uma estrela caira no lago e uma pequena chama ficou por um tempo e sumiu na água. O acaso era mesmo um assassino e o destino um sádico.

Agora sempre pulava. Guardava umas coisas no bolso da calça, nada essencial para se caminhar no cascalho. Gostava de sentir o rosto melecado de vento e insetos mortos. O melhor era perder-se antes de chegar em casa.

hora de explodir 1

Se eu pudesse escolher entre a vida eterna e uma camisa amarela, ficaria com a canção.

Monday, November 10, 2008

Feito a mão

pulou do viaduto às seis da manhã
o plasma desfiou-se no asfalto
e um dedo assanhado ousou escrever:

não é o verbo que vira carne
mas é a carne que reverbera

Sunday, October 19, 2008

Migalhas 3

admirou o bloquinho de notas
a cara impressa do Che Guevara
hasta la victoria siempre
hasta
hasta quedarse
quedar era o verbo mais bonito do espanhol
ficou imaginando Córtazar escrevendo os desmazelos dos guerreiros revolucionários e os cigarros úmidos
os olhos dela marejavam, iam marejando
marajoando
marajoara
tinha na cara duas cêramicas
todo dia ela descobria um fracasso
era como se precisasse remar com as mãos o tempo todo
os dedos já estavam enrugados
virou a página do bloquinho e rascunhou uma frase de efeito
hasta la victoria siempre
ironia vermelha

Monday, October 06, 2008

Migalhas 2

Ele coçou a orelha esquerda encolhendo alguns dedos da mão
Falou qualquer coisa sobre a vida e eu me senti em um elevador

Odiei admirar sua figura graciosa e ser incapaz de completar minhas frases
Ele coçando aquela orelha e eu enchendo a fala de reticências


Depois fiquei pensando
se cabia outra coisa ali

Tuesday, September 23, 2008

Migalhas 1

Não era bonita, nem misteriosa, nem meiga, nem cantava bem
Tinha a cara limpa, a alma imunda e sonhava

Descia a rua sozinha e esperava como as formigas
esperava
que a chuva lhe trouxesse asas

Saturday, September 20, 2008

Desejo de quintal

Olhando assim pra mim cara besta no espelho acho que vou acabar sozinha. Vou virar uma velha cheia de manias em um apartamento amarelo com janelas vermelhas. Serei conhecida por algum nicho de pessoas que vez ou outra virão me entrevistar em alguma data comemorativa. Amargarei todos os gravadores que enfiei nas fuças e nas almas alheias. E sorriei ao abrir a porta rumo a um cômodo amontoada de livros e discos com um tapete bem persa e esverdeado.

Talvez os filhos pequenos dos vizinhos joguem pedras em mim. Talvez algum menino irriquieto reclame à mãe do meu cheiro de poeira. Talvez o padeiro não se acostume as minhas canções e meu tamborilar de dedos. Talvez sempre venha um me perguntar porque os vidrinhos com arsênico na sala. Talvez eu tenha humor para contar meus medos de eternidade

Agora, pode ser que em alguma reviravolta dessas eu acabe casando e tendo um filho. Na verdade eu nunca quis muito filho porque me sentiria muito culpada de botar alguém num trem descarrilhado. Desilusões a parte, só teria filho se fosse com quintal. Quintal com manga, jabuticaba, pitanga, cajueiro, bananeira, pé-de-romã, boldo e campim-santo. Queria ter uma criança com a cara suja de fruta e bicho-de-pé. Se for pra ter filho é pra enfiar a mão na terra e fazer a menina ou o menino caçar minhoca. E seria um molequinho que ia de tarde me perguntar porque não tem imperativo na primeira pessoa, porque a gente não pode mandar na gente mesmo. Aí eu iria entortar o pescoço e sentar com ele na calçada pra fazer história.

E marido? Filho tem de vir com marido pra mim. Não desses que usam gravatas e penduram as pernas na mesa da sala. Se é pra ter marido tinha que ser que nem um professor de gramática que tive. Tem de gostar muito de alguma coisa pequena, meu professor gostava da palavra fotografia. Ele achava lindo isso de escrever com a luz. Ele dizia que existiam dois tipos de pessoas, as que sabiam o significado de efêmero e as que não sabiam. Marido tem de tocar alguma coisa, nem que seja caxinha de fósforo e tem de gostar de arte, pelo menos um bocadinho.

Juntando os dois últimos parágrafos temos o caderno da velha senhora do primeiro parágrafo. Uma senhora que mais que ter marido e filho queria poder todo dia ter fome. Mais que marido e filho queria ter apagado os dois primeiros parágrafos e ter pensado que o futuro poderia ser qualquer coisa.

Tuesday, September 16, 2008

Invalidez

Gostava de admirar os azulejos do banheiro lá de casa. Eram milhares de quadradinhos com figurinhas abstratas que viravam um bocado de coisas, e histórias, e mentiras e um mundo moldado pelo girar da minha cabeça.

Perdia horas infindas, sentado no vaso só para ver as nuancias do azulejo virando papagaio comendo mamão, menino jogando pedra no rio, ponte voando de asa delta. Lembro, que no começo da puberdade, mamãe até desconfiava das minhas longas estadias no banheiro. Mal sabia ela que eu fazia poesia no vaso sanitário!

Lembro muito bem do tempo que gastava com os azulejos como lembro muito bem do dia em que os abandonei. Era uma terça-feira besta como todas as outras. Estava passando pelo banheiro, vi a porta entreaberta e entrei. Sentei no vaso como de costume quando mirei o chão lá estava uma formiga. Uma formiga caminhando para uma poça d'água.

De repente a formiga cai na poça e fica lá balançando as patas. O mais rápido que pude espanei ela da água e esbocei um sorriso ao vê-la continuar a trajetória. Só que aí, a formiga parou, parou para sempre. Naquele instante eu percebi que eu não soubera a diferença da formiga andando e dela agonizando rumo a morte.

Foi muita coisa para uma cabeça imatura. Não contei conversa e pedi naquele dia mesmo para mamãe reformar o banheiro.

Monday, September 15, 2008

Anotem mil vezes:

a queda é mais bruta quando o amor só é de mentirinha

o chão é sempre mais duro para coisas pequenas

Melito

Morreu gorda, psicologicamente gorda. Não criou gatos, ninguém lambeu suas faces antes da putefração. Só uma trilha de formigas percorria o corpo. Depois de uma semana o cheiro incomodou os vizinhos. Recolheram tudo, mas a cena deprimente ficou intocada no apartamento.

Morreu gorda, psicologicamente gorda. Inventou muito doce na vida, viu um bocado de ternuras melequentas onde não havia, passou os dias recortando pessoas de revistas e de relances cotidianos. Só restou da sua vivência besta a marca de suor no sofá, após o cadáver ter despencado no chão.

Monday, September 08, 2008

coisas que eu crio

os olhos tinham um amarelado de gato de casa de tia
um sorriso, um sorriso bem besta e aberto, e aberto
sempre com as mesmas camisas chegava e sumia
eu me perdia contando as suas listras e seus livros
eu tropeçando nas palavras
porque imaginei um chão mais macio,
macio como as suas ironias,
macio
porque eu já sabia que ia cair

Tuesday, September 02, 2008

Diário de uma sub urbana

Desculpe a sorte, mas tenho de admitir
Estava andando pela rua e vi um passarinho esmagado no chão

pego a tempo a câmera e registrado
o vôo interrompido
o ovo interrompido
um bocado de pena(s)

foi como se tivessem enfiado a utopia no asfalto

ps: o pé ficou molinho para caminhar

Monday, August 25, 2008

Diário de uma sub urbana

138 dias sem chover
Uma criança foge de casa e se refugia com catadores de papel
Um carro atropela quatro e um é lançado contra a água fria do lago

138 dias sem roer as unhas
Tudo em mim está ruído, mas as unhas estão inteiras, molengas, mas inteiras
Entendo mais sobre a carne anônima com que me roço esporadicamente

138 dias
Já está em tempo de aprender a voar
Se eu coletasse o mundo nas minhas mãos escorreria lindo

Wednesday, July 02, 2008

diário de uma sub urbana

o fracasso é roxo
a alegria amarela
o descaso azul

as frases pixadas no portão são pretas

e a minha vontade de cair é
verde e rosa
verde e rosa
verde e rosa

Saturday, June 28, 2008

Diário de uma sub urbana

experiência extra sensorial

eixão agitadíssimo
caminhei até a faixa do meio e deitei

é bonito quando as estrelas que não se vê no céu passam do seu lado
rapidinho

de um lado, brancas e de outro, vermelhas

Tuesday, June 10, 2008

Ode ao amor alheio

Os dois se sentaram na sombra
Fazia um dia bem frio e seco
Ela tomava café e ele mastigava a língua

"Vamos ao firmamento? ", perguntou com cara de tacho

Se a tarde fosse azul talvez não houvesse tantos desejos

sonata em miM

meu amor é bem egoísta
nunca precisei de amantes concretos para criá-los
eles sempre foram filhos de mãe solteira,

aprendi a bater sozinha meu coração
eu crio e recrio e transcrio meus amores
e eles nem percebem nada

só que aí quando me vem um sujeito qualquer
todo cheio de amor pra dar
eu me ponho de lado
porque não nasci para ser secundária em romance

sou imunda demais para caber em romance de mais de um
fui feita de lama do cais
sozinha debaixo do cais
de vez em quando me soltando no mar

Tuesday, May 13, 2008

esses pendurados pelo chão

Tem uns tipos de gente que merecem ser namorados. Outro dia tava pensando em tipos que dariam, assim, ótimos amantes. Na falta de pensamento ajeitado na cabeça, fiz uma lista besta:

- piloto de avião que solta fumacinha
- agricultor de carambola
- empacotador de biscoito
- funcionário de parque de diversão
- bibliotecário
- desenhista de histórias em quadrinho
- fazedor de envelope
- catador de buriti
- barista
- iluminador de teatro
- ator de fantoche


Lembrei de um livro bobo que li na adolescência em que a personagem principal falava que homem para namorar tinha de gostar de doce de abóbora. Depois ela fazia uma série de mandamentos pra achar o cara ideal. Eu nem me perco pensando nisso, mas podia ser assim um que gostasse de cajuína e cantasse desafinado, mas dançando na calçada.

Friday, May 02, 2008

fechando o caixa

A hora mais díficil é quando você apóia no balcão e conclui:
É precisamos fechar esse negócio.
Os prejuízos são seus colegas de copo
é antes que a falência culmine o peito se fecha

Só que a lembrança da moedas tintarilando no caixa...
dá uma dor no coração

Engolidora de luz

Eu não tô pedindo muito, meu bem

Só queria dar um zoom no seu olhar distante
E capturar sua existência 3 por 4

Thursday, April 17, 2008

paixão por pequenesas

Ele chega com aquele olhar de fazer cosquinha na alma
Aí, você derrete devagarinho o sonho e deixa escorrer pelo ralo
Vai acendendo uma fogueira no peito e outra no pensamento

Ai,ai,ai

Só que de repente ele vira e fala:
"Deixemos o lirismo de lado. Cansei disso."

Meu mundo caiu feito um viaduto

Gritei aos céus
e me aparece Adélia:
"Tem dias que Deus me tira a poesia e olho para uma pedra e vejo apenas uma pedra"

Só que ele abre um sorriso de canto:
"Mas uma pedra é só uma pedra"

Lá se vai pras cucuias toda a essência bonita da coisa

E como acaba a história, senhores?
Ele agora deve estar fazendo cocégas na alma alheia
e eu, eu olho as pedras imaginando ternurinhas de acariciar existência
cada um com sua figura de linguagem como sempre foi

Wednesday, March 05, 2008

Danço eu, dança você

Aqui está a moça de novo desiludida. Olha pro relógio no monitor, meia noite e quarenta e cinco. Não dá nem para fazer rima com isso. Suas perspectivas estão completamente diluídas na musiquinha pop que sai da caixa de som. Imagine o que cabe naquela hora. O cd reflete bem bonito a luz do teto.

Agora ela lembra que o moço bonito tem namorada, que o moço legal não ligou (e talvez nem ligue) pra ela, que o moço inteligente, finge que dá mole e que ela vai passar os dias catando amores. Diz que nunca colecionou nada, mentira. Coleciona solidões. umas infinitas, de tardes de terça-feira, umas bestas, de banco de praça, umas doces, de casa vazia e umas bem doídas dos dias de sempre.

Lista de supermercado é pilera. Precisa escrever um bocado de coisas que prometeu, mas as promessas fazem uma bolinha grande demais pra caixa dela. O que fazer com seus desatinos míudos, chorar? Nunca foi de ter pena de si mesma. Cantar? a boca tá seca.

Bateu uma fome danada, mas se descer as escadas acorda a mãe. Fervi leite da fazenda, filhinha. Vaca, ela era uma vaca que queria agora pastar na Groelândia, ruminando flocos de gelo.

Dói a cabeça, as costas e o peito ainda inventa de amarrar. Ninguém desata nada com sono. Tem sono mesmo, mas sabe que se deitar vai pensar em romance perfeitinho que nem novela. Só que até quando ela imagina, não dá certo no final, pois ela gosta é de ver o vilão matando a mocinha, que no caso é ela mesma. Suícidio mental. Solta uma risada. O suco gástrico remexe ardendo mais o dentro.

Melhor fechar os documentos. Talvez uma paciência pra terminar a noite? Tem um monte de flores amarelas no "desktop" fingindo mesmo que tem paciência nesse mundo. Até parece que o Bill Gates entende de céu azul. Devaneios, devaneios...

Olha pela janela. Tinha medo das letras dos muros, mesmo a noite quando elas apagavam. Tinha medo de tudo que era mais vivo que ela. Âme en pein. sorrow soul. the pain is the unic thing real. os homens que picham as paredes sabiam de liberdade e de prisão o que ela nunca alcançaria. desvaneios, desvaneios...

Agora já são meia noite e cinqüenta e quatro. Desperdiçou minutos com o nada do pensar. A música ainda é pop e tá na parte do lálálá. A mãe acordou com o barulho. Tô só salvando...porque ela sempre salva o que não vai usar.