Gostava de admirar os azulejos do banheiro lá de casa. Eram milhares de quadradinhos com figurinhas abstratas que viravam um bocado de coisas, e histórias, e mentiras e um mundo moldado pelo girar da minha cabeça.
Perdia horas infindas, sentado no vaso só para ver as nuancias do azulejo virando papagaio comendo mamão, menino jogando pedra no rio, ponte voando de asa delta. Lembro, que no começo da puberdade, mamãe até desconfiava das minhas longas estadias no banheiro. Mal sabia ela que eu fazia poesia no vaso sanitário!
Lembro muito bem do tempo que gastava com os azulejos como lembro muito bem do dia em que os abandonei. Era uma terça-feira besta como todas as outras. Estava passando pelo banheiro, vi a porta entreaberta e entrei. Sentei no vaso como de costume quando mirei o chão lá estava uma formiga. Uma formiga caminhando para uma poça d'água.
De repente a formiga cai na poça e fica lá balançando as patas. O mais rápido que pude espanei ela da água e esbocei um sorriso ao vê-la continuar a trajetória. Só que aí, a formiga parou, parou para sempre. Naquele instante eu percebi que eu não soubera a diferença da formiga andando e dela agonizando rumo a morte.
Foi muita coisa para uma cabeça imatura. Não contei conversa e pedi naquele dia mesmo para mamãe reformar o banheiro.
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