Sunday, May 24, 2009

Despedaços

São cinco da tarde. Há uma vontade de fumar solta no mundo. Minhas mãos se entretem no controle remoto. Há também um livro de Drummond sobre a mesa. É impossível não se sentir bela lendo poesia. As palavras decoram minha imagem de mim mesma.

Eu sorrio.

Não chega a fazer frio, mas sinto o vento. As portas estão todas entreabertas e algumas rangem. Não há nada de novo passando por meus olhos.

Nessas horas, todos os moços têm namoradas, todas as novas regras gramaticais são herméticas e é impossível escrever em francês. Pedir eu sempre peço, mas não devia. Mais fácil mudar o ter remorso que a apatia.

Diz aí, meu deus, quantos erres cabem na minha boca? Quanto tudo cabe em mim?

As minhas mãos, às vezes ficam num atado só. Meu pescoço dói pedacinho por pedacinho.

A salvação vem a prazo.

Minha alma não vai durar tanto tempo sem um trovão rasgando o céu.

Das minhas delicadezas entendo eu

escuta,
eu podia criar vergonha na cara e me encaixar naquela brecha do mundo para ficar só observando e sendo pra dentro.

Sem título

falta tanto para chegar na luz sangrante das frestas das portas
falta tanto e mais um pouco
e quando não falta fica o vazio do cheio
porque é díficil ser
ser assim por completo cansa
e eu canso e caço rede
canso e caço rede
não,
não sou para ser entendida.

Sunday, May 17, 2009

Inconfidência 2

todas as minhas unhas tinham pedido para ele :
ele fez cara de pena.
pena?
as unhas murcharam, murcharam...
ele balançou o queixo com a mesma expressão de outros tantos.
o que é engraçado é isso: a mesma de outros tantos.

não é questão de culpar-me,
falta-me senso mesmo.
bem sabem disso os postes.

e parece que em um gole toda minha sensatez se derrama,
e eu volto a esquizofrênia de inventar uma nova cara,
uma nova, nova, mais lúcida, mais branda.

talvez tivesse faltado mesmo o impacto físico
porque o psicológico já é plástico.
a capa que me cobre é carne,
carne dói, dói e se rasga.
rasguei-me sozinha,
digamos que o mundo já estava de sobreaviso.

e agora, são tantos fragmentos, cadê a cara lúcida?
cadê minhas mãos lúcidas?

meus pulmões estão doendo.
não posso respirar fundo.

vou pagar minhas contas com o mundo depois me acerto comigo mesma,
prometo, juro que prometo.

a carapuça serviu direitinho, sádico acaso que vos chamo destino!
pois saiba que agora, agora vai.
porque rachar já rachou,
não preciso mais de tempo.
preciso de espaço.
e eu me bastarei,
verás.
me bastarei.
agora sem menos nem mais.

Tuesday, May 12, 2009

Vi a vida e me espantei

a traquéia...
meus dedos percorrendo a traquéia ensanguentada.
ainda estava morna
sabe o que significava tocar naquelas ondulações?
eu esticava o pescoço para trás e tocava na minha traquéia

aquele boi morto de bucho aberto ao sol

e parecia que apenas um tecido
separava a minha garganta viva
da garganta exposta
penso que quando eu morrer quero que me estralhacem assim

não, não quero apodrecer antes que eu veja o mundo de dentro de mim
deixe que meus órgãos toquem todas poeiras, toxinas, idéias, salivas!

talvez alguma célula ainda viva suspire,
talvez meu pâncreas roube um poema do ar
e enterre nos vasos.

me estralhacem!
não me deixem morrer inteira.

depois, joguem-me aos vermes sem caixão
quero sentir toda a terra me cobrindo

porque se houver mesmo isso de alma
quero que ela sinta tudo que meu corpo vivo não permite.

Sunday, May 10, 2009

a menina inquieta
virava a pestana
caçando conversa com a vó
ô coisa mais besta
deixa um vento soprar
pra você ficar com o olho desse jeito
que ele venha e me deixe do avesso
quero, vê, vó, quero vê