Tuesday, May 12, 2009

Vi a vida e me espantei

a traquéia...
meus dedos percorrendo a traquéia ensanguentada.
ainda estava morna
sabe o que significava tocar naquelas ondulações?
eu esticava o pescoço para trás e tocava na minha traquéia

aquele boi morto de bucho aberto ao sol

e parecia que apenas um tecido
separava a minha garganta viva
da garganta exposta
penso que quando eu morrer quero que me estralhacem assim

não, não quero apodrecer antes que eu veja o mundo de dentro de mim
deixe que meus órgãos toquem todas poeiras, toxinas, idéias, salivas!

talvez alguma célula ainda viva suspire,
talvez meu pâncreas roube um poema do ar
e enterre nos vasos.

me estralhacem!
não me deixem morrer inteira.

depois, joguem-me aos vermes sem caixão
quero sentir toda a terra me cobrindo

porque se houver mesmo isso de alma
quero que ela sinta tudo que meu corpo vivo não permite.

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