Tuesday, September 23, 2008

Migalhas 1

Não era bonita, nem misteriosa, nem meiga, nem cantava bem
Tinha a cara limpa, a alma imunda e sonhava

Descia a rua sozinha e esperava como as formigas
esperava
que a chuva lhe trouxesse asas

Saturday, September 20, 2008

Desejo de quintal

Olhando assim pra mim cara besta no espelho acho que vou acabar sozinha. Vou virar uma velha cheia de manias em um apartamento amarelo com janelas vermelhas. Serei conhecida por algum nicho de pessoas que vez ou outra virão me entrevistar em alguma data comemorativa. Amargarei todos os gravadores que enfiei nas fuças e nas almas alheias. E sorriei ao abrir a porta rumo a um cômodo amontoada de livros e discos com um tapete bem persa e esverdeado.

Talvez os filhos pequenos dos vizinhos joguem pedras em mim. Talvez algum menino irriquieto reclame à mãe do meu cheiro de poeira. Talvez o padeiro não se acostume as minhas canções e meu tamborilar de dedos. Talvez sempre venha um me perguntar porque os vidrinhos com arsênico na sala. Talvez eu tenha humor para contar meus medos de eternidade

Agora, pode ser que em alguma reviravolta dessas eu acabe casando e tendo um filho. Na verdade eu nunca quis muito filho porque me sentiria muito culpada de botar alguém num trem descarrilhado. Desilusões a parte, só teria filho se fosse com quintal. Quintal com manga, jabuticaba, pitanga, cajueiro, bananeira, pé-de-romã, boldo e campim-santo. Queria ter uma criança com a cara suja de fruta e bicho-de-pé. Se for pra ter filho é pra enfiar a mão na terra e fazer a menina ou o menino caçar minhoca. E seria um molequinho que ia de tarde me perguntar porque não tem imperativo na primeira pessoa, porque a gente não pode mandar na gente mesmo. Aí eu iria entortar o pescoço e sentar com ele na calçada pra fazer história.

E marido? Filho tem de vir com marido pra mim. Não desses que usam gravatas e penduram as pernas na mesa da sala. Se é pra ter marido tinha que ser que nem um professor de gramática que tive. Tem de gostar muito de alguma coisa pequena, meu professor gostava da palavra fotografia. Ele achava lindo isso de escrever com a luz. Ele dizia que existiam dois tipos de pessoas, as que sabiam o significado de efêmero e as que não sabiam. Marido tem de tocar alguma coisa, nem que seja caxinha de fósforo e tem de gostar de arte, pelo menos um bocadinho.

Juntando os dois últimos parágrafos temos o caderno da velha senhora do primeiro parágrafo. Uma senhora que mais que ter marido e filho queria poder todo dia ter fome. Mais que marido e filho queria ter apagado os dois primeiros parágrafos e ter pensado que o futuro poderia ser qualquer coisa.

Tuesday, September 16, 2008

Invalidez

Gostava de admirar os azulejos do banheiro lá de casa. Eram milhares de quadradinhos com figurinhas abstratas que viravam um bocado de coisas, e histórias, e mentiras e um mundo moldado pelo girar da minha cabeça.

Perdia horas infindas, sentado no vaso só para ver as nuancias do azulejo virando papagaio comendo mamão, menino jogando pedra no rio, ponte voando de asa delta. Lembro, que no começo da puberdade, mamãe até desconfiava das minhas longas estadias no banheiro. Mal sabia ela que eu fazia poesia no vaso sanitário!

Lembro muito bem do tempo que gastava com os azulejos como lembro muito bem do dia em que os abandonei. Era uma terça-feira besta como todas as outras. Estava passando pelo banheiro, vi a porta entreaberta e entrei. Sentei no vaso como de costume quando mirei o chão lá estava uma formiga. Uma formiga caminhando para uma poça d'água.

De repente a formiga cai na poça e fica lá balançando as patas. O mais rápido que pude espanei ela da água e esbocei um sorriso ao vê-la continuar a trajetória. Só que aí, a formiga parou, parou para sempre. Naquele instante eu percebi que eu não soubera a diferença da formiga andando e dela agonizando rumo a morte.

Foi muita coisa para uma cabeça imatura. Não contei conversa e pedi naquele dia mesmo para mamãe reformar o banheiro.

Monday, September 15, 2008

Anotem mil vezes:

a queda é mais bruta quando o amor só é de mentirinha

o chão é sempre mais duro para coisas pequenas

Melito

Morreu gorda, psicologicamente gorda. Não criou gatos, ninguém lambeu suas faces antes da putefração. Só uma trilha de formigas percorria o corpo. Depois de uma semana o cheiro incomodou os vizinhos. Recolheram tudo, mas a cena deprimente ficou intocada no apartamento.

Morreu gorda, psicologicamente gorda. Inventou muito doce na vida, viu um bocado de ternuras melequentas onde não havia, passou os dias recortando pessoas de revistas e de relances cotidianos. Só restou da sua vivência besta a marca de suor no sofá, após o cadáver ter despencado no chão.

Monday, September 08, 2008

coisas que eu crio

os olhos tinham um amarelado de gato de casa de tia
um sorriso, um sorriso bem besta e aberto, e aberto
sempre com as mesmas camisas chegava e sumia
eu me perdia contando as suas listras e seus livros
eu tropeçando nas palavras
porque imaginei um chão mais macio,
macio como as suas ironias,
macio
porque eu já sabia que ia cair

Tuesday, September 02, 2008

Diário de uma sub urbana

Desculpe a sorte, mas tenho de admitir
Estava andando pela rua e vi um passarinho esmagado no chão

pego a tempo a câmera e registrado
o vôo interrompido
o ovo interrompido
um bocado de pena(s)

foi como se tivessem enfiado a utopia no asfalto

ps: o pé ficou molinho para caminhar