Olhando assim pra mim cara besta no espelho acho que vou acabar sozinha. Vou virar uma velha cheia de manias em um apartamento amarelo com janelas vermelhas. Serei conhecida por algum nicho de pessoas que vez ou outra virão me entrevistar em alguma data comemorativa. Amargarei todos os gravadores que enfiei nas fuças e nas almas alheias. E sorriei ao abrir a porta rumo a um cômodo amontoada de livros e discos com um tapete bem persa e esverdeado.
Talvez os filhos pequenos dos vizinhos joguem pedras em mim. Talvez algum menino irriquieto reclame à mãe do meu cheiro de poeira. Talvez o padeiro não se acostume as minhas canções e meu tamborilar de dedos. Talvez sempre venha um me perguntar porque os vidrinhos com arsênico na sala. Talvez eu tenha humor para contar meus medos de eternidade
Agora, pode ser que em alguma reviravolta dessas eu acabe casando e tendo um filho. Na verdade eu nunca quis muito filho porque me sentiria muito culpada de botar alguém num trem descarrilhado. Desilusões a parte, só teria filho se fosse com quintal. Quintal com manga, jabuticaba, pitanga, cajueiro, bananeira, pé-de-romã, boldo e campim-santo. Queria ter uma criança com a cara suja de fruta e bicho-de-pé. Se for pra ter filho é pra enfiar a mão na terra e fazer a menina ou o menino caçar minhoca. E seria um molequinho que ia de tarde me perguntar porque não tem imperativo na primeira pessoa, porque a gente não pode mandar na gente mesmo. Aí eu iria entortar o pescoço e sentar com ele na calçada pra fazer história.
E marido? Filho tem de vir com marido pra mim. Não desses que usam gravatas e penduram as pernas na mesa da sala. Se é pra ter marido tinha que ser que nem um professor de gramática que tive. Tem de gostar muito de alguma coisa pequena, meu professor gostava da palavra fotografia. Ele achava lindo isso de escrever com a luz. Ele dizia que existiam dois tipos de pessoas, as que sabiam o significado de efêmero e as que não sabiam. Marido tem de tocar alguma coisa, nem que seja caxinha de fósforo e tem de gostar de arte, pelo menos um bocadinho.
Juntando os dois últimos parágrafos temos o caderno da velha senhora do primeiro parágrafo. Uma senhora que mais que ter marido e filho queria poder todo dia ter fome. Mais que marido e filho queria ter apagado os dois primeiros parágrafos e ter pensado que o futuro poderia ser qualquer coisa.
1 comment:
Deliciosamente agradável a explicação para o filho
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