Aqui está a moça de novo desiludida. Olha pro relógio no monitor, meia noite e quarenta e cinco. Não dá nem para fazer rima com isso. Suas perspectivas estão completamente diluídas na musiquinha pop que sai da caixa de som. Imagine o que cabe naquela hora. O cd reflete bem bonito a luz do teto.
Agora ela lembra que o moço bonito tem namorada, que o moço legal não ligou (e talvez nem ligue) pra ela, que o moço inteligente, finge que dá mole e que ela vai passar os dias catando amores. Diz que nunca colecionou nada, mentira. Coleciona solidões. umas infinitas, de tardes de terça-feira, umas bestas, de banco de praça, umas doces, de casa vazia e umas bem doídas dos dias de sempre.
Lista de supermercado é pilera. Precisa escrever um bocado de coisas que prometeu, mas as promessas fazem uma bolinha grande demais pra caixa dela. O que fazer com seus desatinos míudos, chorar? Nunca foi de ter pena de si mesma. Cantar? a boca tá seca.
Bateu uma fome danada, mas se descer as escadas acorda a mãe. Fervi leite da fazenda, filhinha. Vaca, ela era uma vaca que queria agora pastar na Groelândia, ruminando flocos de gelo.
Dói a cabeça, as costas e o peito ainda inventa de amarrar. Ninguém desata nada com sono. Tem sono mesmo, mas sabe que se deitar vai pensar em romance perfeitinho que nem novela. Só que até quando ela imagina, não dá certo no final, pois ela gosta é de ver o vilão matando a mocinha, que no caso é ela mesma. Suícidio mental. Solta uma risada. O suco gástrico remexe ardendo mais o dentro.
Melhor fechar os documentos. Talvez uma paciência pra terminar a noite? Tem um monte de flores amarelas no "desktop" fingindo mesmo que tem paciência nesse mundo. Até parece que o Bill Gates entende de céu azul. Devaneios, devaneios...
Olha pela janela. Tinha medo das letras dos muros, mesmo a noite quando elas apagavam. Tinha medo de tudo que era mais vivo que ela. Âme en pein. sorrow soul. the pain is the unic thing real. os homens que picham as paredes sabiam de liberdade e de prisão o que ela nunca alcançaria. desvaneios, desvaneios...
Agora já são meia noite e cinqüenta e quatro. Desperdiçou minutos com o nada do pensar. A música ainda é pop e tá na parte do lálálá. A mãe acordou com o barulho. Tô só salvando...porque ela sempre salva o que não vai usar.
1 comment:
eita que eu gostei, ó. a parte de colecionar tá bonita demais. ^^
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